Sonho do modernismo era traduzir as cores do Brasil para as telas

DANIEL PIZA

Ainda que comece em 1922, com a Semana de Arte Moderna de So Paulo, o segundo mdulo da "Bienal Brasil Sculo 20" tem origem em 1917, ano em que Anita Malfatti (1896-1964) faz sua primeira exposio individual em So Paulo.

A exposio provoca grande rebulio. O escritor Monteiro Lobato faz uma crtica  exposio, chamada "Parania ou Mistificao?", em que condena a adeso de Malfatti ao cubismo, futurismo "e outros ismos" que ento surgiam na Europa.

Com influncia inicial do expressionismo alemo, Malfatti vai contra a tendncia neoclssica da arte brasileira do incio do sculo. Para o curador da Fundao Bienal, Nelson Aguilar, Lobato ficou chocado com a economia de traos e a franqueza de cores de sua pintura.

Malfatti tambm volta sua tcnica moderna ao mundo rural brasileiro, usando motivos primitivistas em seu trabalho. A atitude  indita.

Mas, segundo a curadora do mdulo, Annateresa Fabris, a modernidade que So Paulo comearia a adotar no  a prescrita por Malfatti. Fabris d o exemplo de Victor Brecheret (1894-1955), cuja aceitao pelo meio intelectual foi muito maior.

Para Annateresa, Brecheret lanava mo de referncias do passado, em dilogo com a tradio da escultura, e isso lhe rendeu sucesso entre os crticos paulistas.

A modernidade que lhes interessava seria, ento, mais de contedo que de forma, mais de ordem que de mpeto destrutivo -o contrrio do que pregava a maioria das vanguardas internacionais. "A esttica de Brecheret no chocava o senso comum da poca", diz Annateresa.

Outro exemplo desse comportamento  o temor que o escritor Mrio de Andrade manifestou  pintora Tarsila do Amaral (1890- 1973). "Ele temia que a temporada que Tarsila passaria em Paris fosse 'despersonalizar' sua linguagem artstica."

Ali se comea a formar um "discurso nacional", diz Annateresa. O que crticos como Srgio Milliet e Mrio admiravam em Tarsila era sua "brasilidade".

Para Annateresa, esse discurso impediu a avaliao de caractersticas importantes nas obras de Anita, Tarsila, Di Cavalcanti (1897-1976), Vicente do Rgo Monteiro (1899-1970), Lasar Segall (1891-1957) e Oswaldo Goeldi (1895-1961).

Ao mesmo tempo, consagrou pintores apenas por mrito temtico. O maior exemplo, segundo Fabris,  Cndido Portinari (1903-1962). Mrio de Andrade o converte em prottipo do artista nacional.

J  a dcada de 30. Desse perodo em diante, julga Aguilar, a arte moderna brasileira "entra num figurativismo cada vez mais dogmtico". Segall, por exemplo, depois da ousadia de "Paisagem Brasileira" (1925), volta s cores sombrias e formas conservadoras de seu expressionismo.

A consequncia disso  exemplificada pela trajetria da pintora portuguesa Vieira da Silva (1908-1991) na dcada de 40. Radicada em Paris desde os anos 20, ela vem para o Brasil em 1940 e, para ter repercusso aqui, praticamente abandona seu abstracionismo (leia definio abaixo).

O outro curador deste segundo mdulo, Tadeu Chiarelli, se dedicou a pensar nos artistas "marginalizados" por aquele discurso nacional -e no s por ele. "Tambm houve os que foram postos  margem por no ser de vanguarda", diz Chiarelli.

Ele encaixa nessa categoria, entre outros, Anita Malfatti, porque voltou  ordem, a repensar a tradio; Flvio de Carvalho (1899-1973) e Ismael Nery (1900- 1934), cujas obras so ousadas e conturbadas; e Maria Martins (1900-1978), por sua investigao do irracionalismo.

"Vamos mostrar uma viso no-institucionalizada do modernismo", diz. " preciso rever as obras dos artistas independentemente dos grupos a que pertenceram."
